Vergílio Ferreira
1916 - 1996

“Da minha língua vê-se o mar.”

 

Excerto do discurso «A Voz do Mar», lido por Vergílio Ferreira em 1991, na cerimónia de atribuição do Prémio Europália (Bruxelas):

 

“O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. A alma do meu país teve o tamanho do mundo.

Estamos celebrando a gesta dos portugueses nos seus descobrimentos. Será decerto a altura de a Europa celebrar também o que deles projectou na extraordinária revolução da sua cultura. Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade.

Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós.

E foi nessa consubstanciação que um novo espírito se formou, como foi outro o espírito da Europa inteira na reconversão total das suas evidências.”

 
Vergílio Ferreira, romancista e ensaísta português, nasceu em 1916 e morreu em 1996.
 
«A Voz do Mar», in Espaço do Invisível 5, Lisboa, Bertrand, 1999, pp. 83-84